Minhocão: São Paulo tem a sua própria versão do High Line

Minhocão: São Paulo tem a sua própria versão do High Line

O Minhocão, nome carinhoso dado pelo povo paulistano ao Elevado Presidente João Goulart, é visto como uma verdadeira aberração urbanística desde a sua inauguração, no ano de 1971. E além de não ter cumprido a tarefa de desafogar o já caótico trânsito de São Paulo (já no primeiro ano, se transformou em apenas mais uma praça de congestionamento), de quebra ainda promoveu a desvalorização em massa de toda a região à sua volta.

Hoje, cada metro do elevado representa a materialização da já conhecida relação de amor e ódio das pessoas com a cidade de São Paulo. Com a desativação da passagem de automóveis já prevista no plano diretor de São Paulo, há quem o queira colocado abaixo, peça por peça, sem dó ou piedade. E há também quem o imagine como um moderno parque linear urbano, seguindo o exemplo do High Line,  em Nova York, e também do Promenade Plantée, em Paris.

Ressignificação Espontânea

Desde 1989, os horários de fechamento do minhocão foram aumentando, com o objetivo de reduzir a poluição sonora e trazer o mínimo de conforto para a população que vive nos apartamentos à margem da via. Hoje, os horários de interdição do Minhocão são das 21:30h às 6:30h nos dias úteis, e nos finais de semana, vai das 15h do sábado até 6:30h da segunda-feira seguinte. Nos feriados, fica aberto para o lazer o dia todo.

Minhocão São Paulo 1

Mesmo com o debate sobre o destino do Minhocão estando ainda longe de chegar ao fim, o Paulistano resolveu não esperar e aproveitou os horários de interdição para transformar o elevado em uma área de lazer e prática de esportes da forma mais espontânea possível: indo lá e usando o que não estava sendo usado. Isso trouxe um significado mais pacífico para o que antes só trazia prejuízos, melhorando a qualidade de vida dos moradores, e revertendo por conta própria o estado de abandono que foi desenvolvido na região.

Assumir o lugar dos carros nos períodos de interdição do Minhocão foi também daqueles casos em que a necessidade encontra a oportunidade. A região é distante de áreas de lazer consagradas como o Parque Ibirapuera e o Parque do Povo, e nenhuma iniciativa de construir uma área de lazer segura para a região havia partido da prefeitura.

Com 3,4 quilômetros de extensão – começa em Perdizes (Zona Oeste) e chega à Praça Roosevelt (centro), a via fica tomada de gente praticando esportes como ciclismo, corrida, patinação e até batendo uma bolinha (só não vale “chutão”, né), e nos finais de semana e feriados, muitos turistas e moradores de outras regiões ajudam a reforçar a vocação do Minhocão como área de lazer e, inesperadamente, como ponto turístico da capital paulista.

Tomar uma água de côco em família ou dar uma volta com o cachorro, também está absolutamente liberada. Por falar em cachorro, há até um grupo que se reúne para passeios noturnos com os amigos de quatro patas da região, o Minhocães.

Não Esqueça a Câmera

Quem é fascinado por fotografia urbana, explorando partes da cidade que a rotina agitada costuma esconder, se sente em um oásis já ao chegar por lá. Caminhar no Minhocão com uma câmera nas mãos e deixar a imaginação fervilhar um pouco (o calor de São Paulo ajuda bastante :mrgreen: ) rapidamente foi resultando em uns cliques interessantes.

É um cenário um tanto louco, onde grafite e pichação, ruínas e prédios até que bem conservados, gente pobre e abastada, céu e asfalto resolvem combinar e conviver de forma harmoniosa durante algumas horas ou um final de semana que seja.

We're livin' on the edge…

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Um outro mérito brilhante dessa ocupação espontânea do Minhocão é que a utilização do elevado para o lazer motivou a prefeitura a levar mais segurança para os frequentadores, sendo a quantidade de incidentes baixíssima no elevado nos dias de hoje. Durante o dia, por exemplo, é bem comum ver pessoas com equipamento fotográfico pesado produzindo ensaios com modelos, aproveitando os diversos cenários como locação.

Passe Livre para a Arte

As manifestações espontâneas de cultura também ganham espaço de várias formas e nem é preciso ter olhos tão atentos assim para apreciar os murais grafitados nas laterais de vários prédios no percurso. É arte urbana em pleno estado de ebulição.

Através do grafite e da poesia, o concreto dos postes e paredes ganha voz e dá significados especiais à palavra intervenção tanto nos momentos mais calmos, quanto vista por alguém caminhando no meio de um feriado, ou nas horas turbulentas de um engarrafamento.

Um mural em particular (foto abaixo) mostra o outro lado dessa história toda, trazendo à tona o fato de ser quase impossível não imaginar o tamanho da falta de privacidade que qualquer um dos usos atuais do minhocão traz pra quem mora na beira do elevado. Alguns apartamentos ficam a pouquíssimos metros das pistas e qualquer solução futura que não contemple esse aspecto, soará como poeira empurrada pra baixo do tapete.

Cidades para Pessoas

O Minhocão é uma aberração? Sem dúvida alguma, tendo em vista o rastro de decadência e inconveniência que o elevado rapidamente promoveu por onde passou. Mas a capacidade de adaptação do Brasileiro é dar orgulho à Darwin, e com a ocupação do elevado, São Paulo passou a ter uma oportunidade ímpar de transformar o Minhocão no símbolo de uma transformação baseada no conceito de “cidades para pessoas”, uma abordagem urbanística ao mesmo tempo moderna e mais humana.

Pessoalmente, nas horas livres que tenho quando vou à São Paulo, curto muito utilizar o Minhocão como área de lazer, seja para caminhar ou para me divertir fotografando. Em comparação com a Avenida Paulista, que aos domingos também vira uma área de lazer em pleno asfalto, o Minhocão me ganha por ser um espaço muito menos concorrido e silencioso. Quase que uma fuga estratégica do ritmo louco de São Paulo.

Creio também que as duas ideias de destino do elevado tem suas parcelas de vantagens e desvantagens, mas a derrubada só me convence se uma outra área de lazer tão boa quanto o Minhocão for imediatamente dada para os moradores do Centro, no melhor estilo “troca-troca”, “toma lá, dá cá”.

 

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Engenheiro Bioquímico por formação, Carioca por vocação, 30 anos. 11 em cada 10 sonhos seus envolvem nomadismo e lugares pouco convencionais ao redor do mundo. Uma hora ele acaba realizando.