Diário de Bordo - Torres del Paine - Valle del Francés e Mirador Británico

Diário de Bordo – Torres del Paine – Valle del Francés e Mirador Británico

Eis que chega o dia mais hard de todo o percurso. Aquele que vai de fato colocar à prova toda a sua preparação e planejamento para realizar o circuito. Se os aproximadamente 13 km por dia já estava cansativo, a missão do dia pede disciplina, concentração e agilidade, sob o risco de anoitecer no meio das estepes, já que 24,1 km separam os refúgios Los Cuernos e Paine Grande, seguindo o traçado integral do W, que te leva ao Valle Francés e adentra a “segunda perna” do W até Mirador Británico, antes de seguir em frente.

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Preparação para a saída do Refúgio Los Cuernos, cedo pela manhã.

Sair muito tarde é certeza de perrengue, então se prepare para sair, estourando, até as 10 da manhã (no verão, quando o sol se põe entre 21 e 22 hs). Pela previsão do mapa, todo o trajeto já levaria 10 horas de duração. Mas você irá descansar, tirar fotos, comer, e a disposição da manhã não será a mesma do final do dia. Coloque mais 2 justas horas nessa conta e lembre-se de sair com essas 12 horas de diferença até o horário do pôr do sol na época em que estiver no parque.

Se achar que é muito pra um dia, uma boa estratégia é levar uma barraca de camping e reservar um espaço no “Campamento Italiano” para pernoitar. Daí você ganha mais liberdade pra caminhar num ritmo mais lento e tem uma pausa maior à custo zero, já que esse acampamento é mantido pela organização do parque e é inteiramente gratuito. Cada um sabe do seu limite, e também em qual ritmo quer viver as suas aventuras e, da mesma forma que eu disse que você não precisa levar um mundo de roupas na mochila, por não estar se preparando para um desfile, também digo que você não precisa realizar o circuito no menos tempo possível, já que não é uma maratona.

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Campamento Italiano – Parque Nacional Torres del Paine.

Inclusive eu adotaria essa estratégia da parada se voltasse hoje no parque, já que a própria organização proíbe você de seguir do Campamento Italiano em diante após as 19 horas, o que torna o dia corrido demais.

O dia estava muito bonito, com uma temperatura bem amena e luminosidade boa pra começar a caminhada no meio da manhã. Na saída do Refúgio Los Cuernos, a parada pra observar as três formações rochosas que dão nome à região é obrigatória. E com o dia aberto, o cenário fica perfeito para ótimas fotografias.

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Grata surpresa no início da caminhada.

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Lago Nordenskjold – Parque Nacional Torres del Paine.

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Lago Nordenskjold – Parque Nacional Torres del Paine.

O primeiro trecho do dia é uma descida tranquila que dá numa espécie de prainha à beira da parte final do Lago Nordenskjold.

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“Praia” de lago (Quem se habilita pra um mergulho?) – Lago Nordenskjold – Parque Nacional Torres del Paine

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Este que vos fala, com a inseparável mochila e segurando os dois melhores investimentos para esta aventura.

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Logo depois, o trecho que leva até o Campamento Italiano é um bosque bem plano onde você deve aproveitar pra apertar o passo, já que o terreno ajuda a não forçar tanto as pernas. Dali, você tem uma vista perfeita dos Cuernos del Paine e também do Pico do Glaciar Francés, sendo possível até escutar uns bons estrondos que as pequenas avalanches que ocorrem lá em cima, provocam.

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Glaciar Francés – Parque Nacional Torres del Paine

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Os dois melhores custo-benefício desta aventura.

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Cada vez mais próximo do gigante – Glaciar Francés – Parque Nacional Torres del Paine.

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Rio Francés – Parque Nacional Torres del Paine.

Chegando ao Campamento Italiano, um alívio. É possível deixar as mochilas grandes na guardería (posto da guarda florestal), enquanto você sobe até os Miradores Francés e Británico. As mochilas ficam amontoadas na frente da guarita mesmo, e os guardas garantem que ninguém pega. Confiei de boa por dois motivos: um, por ser insano subir até o Mirador Britânico com a cargueira nas costas. E dois, por duvidar que qualquer ser humano naquela altura do parque faça questão de 1 grama que seja a mais nas costas.

Passei os cadeados nos zíperes, botei a câmera, comida e água na mochila de ataque e iniciei a subida com quase peso nenhum nas costas.

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Campamento Italiano – Parque Nacional Torres del Paine

Com 30 minutos de caminhada, você chega ao primeiro mirante do Glaciar. O visual do vale é fenomenal e te dá aquela sensação de que você está dentro de uma pintura, ou uma daquelas imagens que só os fotógrafos da National Geografic conseguem captar.

Você não precisa ficar 15 minutos parado ali pra que no meio de algumas avalanches pequenas, role uma daquelas bem estrondosas. E foi então que a deixa pra seguir até o mirante principal foi dada, já que não é todo dia que rola a chance de assistir demonstrações da força da natureza de camarote. As avalanches ocorrem do outro lado do vale e numa altitude considerável. Ou seja, pode ficar tranquilo que você não precisa sair correndo da neve!

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Primeiro Mirador do Glaciar Francés – Parque Nacional Torres del Paine.

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As cascatas que descem das montanhas no parque, além de trazerem beleza, também são fonte de água potável para os visitantes.

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Glaciar Francés – Parque Nacional Torres del Paine.

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Glaciar Francés – Parque Nacional Torres del Paine.

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Tanto a barulheira, quanto o visual das avalanches no topo da geleira se amplificam quando você chega no Mirador Francês e se junta com outros aventureiros pra ficar ali parado e admirando a ação do Glaciar. É como se a montanha tivesse vida própria.

O dia estava aberto, e isso facilitava a ida até o Mirador Británico. A trilha que entre o Campamento Italiano e o Mirador Francés, é bem pedregosa e envolve uma subida exigente, agora entra num trecho com aclive bem mais suave e adentra um enorme bosque de lenha que cobre quase a totalidade do percurso, até que chegue o último grande mirante do dia. O que facilita pra dar uma acelerada pra tentar ganhar tempo.

Ao longo do caminho, o Rio Francés vai margeando o bosque e mesmo empreendendo um tanto de pressa na caminhada, vez ou outra é impossível não dar uma parada pra tirar umas fotos das cascatas que ele vai formando. A trilha é bem demarcada no chão, mas a sinalização é feita com faixas vermelhas pintadas em árvores e pedras, para não deixar dúvidas sobre o caminho correto.

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Trilha muito bem demarcada em meio ao bosque de “lengas”, tanto no chão, quanto pela sinalização em vermelho nas árvores.

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Rio Francés cortando todo o vale – Parque Nacional Torres del Paine.

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Visão panorâmica do bosque sendo cortado pelo Rio Francés e do cinturão de granito ao redor do vale – Parque Nacional Torres del Paine.

No final do bosque, apenas uma pequena clareira lotada de pedras me separava da pequena, mas íngreme, subida para o mirante.

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Clareira que marca a chegada ao ponto do Mirador Británico. O caminho entre as pedras é marcado por estacas de madeira vermelhas fincadas no chão.

Lá de cima o visual compensa todo o esforço feito e a correria do dia (mesmo que ele ainda estivesse longe de acabar). Do mirante você tem uma visão panorâmica da cadeia de montanhas que forma o vale, com destaque para Los Cuernos (vistos agora de um outro ângulo) e para a Alleta del Tiburón, uma montanha em formato de barbatana de tubarão. Também é legal ver o traçado do Rio Francés e o encontro dele com o Glaciar.

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Checkpoint – A prova de que eu fui lá! =D

 

 

 

 

 

 

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Visual do alto do Mirador Británico para o vale – Parque Nacional Torres del Paine.

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Pausa pra foto! =D

Como eu já citei antes no texto, a guarda florestal interrompe a passagem para o trecho que liga o Campamento Italiano até o Lodge Paine Grande após as 19 horas, e como já passava um pouco das 16 hs, a descida foi feita à jato, aproveitando a boa planicidade do bosque até chegar de volta no Mirador Francés e agradecendo a Deus por ter tomado a sábia decisão de ter levado botas de cano elevado e os dois bastões de trilha, que permitiram fazer a parte boa a difícil da descida evitando torções e quedas, que dependendo da gravidade podem encerrar a sua jornada ali mesmo.

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O degelo dos glaciares produz a água dos rios e forma pequenos lagos no vale.

Sem muito tempo pra contemplação, cheguei ao Campamento Italiano com 15 minutos faltando pro fechamento da passagem. Descida feita com uma hora a menos que a subida. Tempo bastante só pra botar a cargueira nas costas e continuar a correria, já que, no extremo do cansaço, ainda haviam 7,5 km para ser percorridos antes do anoitecer. Ou seja, menos de 3 horas.

Ao atravessar a ponte, topei com um grupo de Brasileiros que fazia o caminho inverso, que me tranquilizaram um pouco, dizendo que aquele era o trecho mais tranquilo, com pouquíssimos desníveis. Ainda assim, eram 7,5 km, com todo cansaço acumulado durante o dia, mais a cargueira de volta às costas. Não seria fácil. Nesse horário, quase todo mundo já havia ido mais cedo, tanto que só me lembro de ter visto umas 5 pessoas durante o trajeto todo.

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Em 2012, houve um grande incêndio em Torres del Paine, que destruiu uma enorme área do parque, que até hoje ainda sofre para ser recuperada. Por pura imprudência de um turista que resolveu fazer fogo em área proibida, um dos lugares mais bonitos do mundo foi extremamente afetado e a mensagem que fica (e que inclusive é reforçada no vídeo passado pela direção do parque durante o credenciamento para entrada) é que, além de não valer a pena burlar as regras de preservação e segurança do parque, fazer fogo em área proibida é crime.

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A estrutura do Parque Nacional Torres del Paine é sensacional. Trilhas bem marcadas e com acesso facilitado quando necessário, com pequenas pontes de madeira.

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O incêndio de 2011 ainda deixa marcas profundas no parque.

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Na área atingida pelo incêndio de 2011, a vida tenta ressurgir aos poucos, recolocando cores na vegetação rasteira enquanto árvores secas resistem para nos lembrar da responsabilidade de cuidar do local enquanto passamos por lá.

O cenário que já não era dos mais divertidos, foi ganhando alguns componentes de tensão. Passada essa área devastada, do meio pra frente você entra em um imenso e bonito campo dourado. Dourado igual aos pumas. Pumas que se recolhem ao cair da noite. E tudo que eu não precisava era cruzar com algum no caminho. E parece que só porque eu não queria, dois filhotes cruzaram a trilha em sumiram camuflados na vegetação.

A associação mais lógica é que, se os filhotes estão ali, também estão o pai, a mãe, os primos e até o papagaio de estimação. A famosa “hora que a criança chora e a mãe não escuta”. Na verdade, nem a mãe e nem ninguém ia escutar, já que eu era o único representante da raça humana ali naquele momento.

Como morrer como a janta de pumas não era o que eu considerava o destino mais digno pra mim, aproveitei a descarga extra de adrenalina, e sem sequer olhar pros lados, dei aquela apertada no passo mirando no final daquele campo. A parte boa do medo é que de uma hora pra outra, some dor, some cansaço e some impaciência. O medo simplifica a nossa existência. Nunca fui ateu, mas se eu fosse eu teria me convertido na mesma hora.

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Cores do fim de tarde inesquecível à beira do Lago Pehoe – Parque Nacional Torres del Paine.

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O descanso cada vez mais próximo – Refúgio Paine Grande – Parque Nacional Torres del Paine.

Saindo do campo, a melhor visão que eu pude ter nem foi o Lago Pehoe, mas sim o Lodge Paine Grande, o refúgio do dia. Palavras de ordem pra fechar o dia: ducha quente, comida e cama, que o que sobrou de mim ainda tinha a última etapa dessa jornada pra cumprir no dia seguinte.

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Hora do merecido descanso, longe dos pumas! =D

Na nossa sessão Diário de Bordo, contamos todo o nosso roteiro ao mesmo tempo que trazemos o relato da nossa aventura percorrendo o Circuito W em Torres del Paine, realizado em Fevereiro de 2015, utilizando os serviços da Fantástico Sur. Além deste, temos mais quatro capítulos:

Dia 1 – Punta Arenas x Puerto Natales x Torres del Paine (Em Atualização);

Dia 2 – Rumo ao Mirador de Las Torres del Paine

Dia 3 – Na Companhia do Lago Nordenskjold

Dia 4 – Glaciar Francés e Mirador Británico

Dia 5 – Mirador Grey e retorno para Puerto Natales

E para te ajudar a planejar a sua ida ao parque, no nosso Guia Torres del Paine você encontrará as informações necessárias de forma prática e objetiva.

 

Engenheiro Bioquímico por formação, Carioca por vocação, 30 anos. 11 em cada 10 sonhos seus envolvem nomadismo e lugares pouco convencionais ao redor do mundo. Uma hora ele acaba realizando.